14 fevereiro 2009

A Grande Fuga (Parte 2)

Mais um dia tentando passar pela polícia sem sermos pegos, mas era uma tarefa quase impossível. Como sempre fazemos antes de pegar a estrada, fomos até o posto mais próximo para abastecer e calibrar os pneus, além de passar graxa nas correntes.

Pedimos informação sobre qual caminho tomar para Puerto Iguazú, cidade argentina fronteiriça com a brasileira Foz do Iguaçu, e nos indicaram a Ruta 12.

Assim que saímos do posto vimos uma viatura da Policia Caminera da província de Misiones passar em sentido contrário. Alguns metros depois Eduardo me fez sinal apontando para o retrovisor. Quando olhei, vi que eles tinham feito o retorno para nos perseguir. Que saco! Eu não aguentava mais ter que ficar dando satisfações aos oficiais argentinos. Tudo bem que esse era o trabalho deles, mas precisavam ser tão chatos?

Ter uma moto esportiva em um país onde ela não é conhecida também tem suas desvantagens. Aparentemente eles só resolveram nos seguir porque me viram passar com o corpo deitado sobre o tanque. A polícia rodoviária de lá não tem medidores de velocidade à sua disposição e descobrem a sua velocidade na base do “olhômetro” mesmo. Por causa disso, eles não têm como provar que alguém estava acima do limite de velocidade, porém, em contrapartida, a palavra do policial vale como prova em um tribunal, o que abre larga margem para a corrupção e extorsão por parte deles. Ainda assim eu tinha esperança de que eles só queriam mesmo era voltar para o lugar de onde vieram, por isso fizeram o retorno. Doce ilusão. Deixamos eles passarem e, assim que emparelharam conosco, nos mandaram encostar.

Como já sabíamos o que eles iam nos pedir, pegamos logo os nossos documentos afim de apresentar a eles. Vai ver que eles só queriam checar como fizeram alguns policiais ontem. Que nada, acho que estou sendo otimista demais. Eles alegaram mais uma vez que estávamos acima do limite de velocidade. Eu disse que não, que estávamos a 80 km/h, pois essa era a velocidade da via. O cara respondeu que havia uma placa que dizia 80 km/h, mas a 50 metros antes dessa tinha uma que dizia 60 km/h. Eles inventam de tudo para dar base às afirmações deles. Mas não caí na conversa deles. Eu sabia que estávamos dentro do limite de velocidade e disse que estávamos a 60 km/h até a placa de 80 km/h, quando aumentamos um pouco, mas não tinha conversa. O policial estava determinado a nos multar.

Ele disse que a multa tinha que ser paga no Tribunal de Faltas mas, como era sábado e o tribunal estava fechado, as motos seriam apreendidas até segunda-feira. Isso se pagássemos a tal multa. Era uma situação que não podíamos aceitar. Nós não estávamos acima do limite de velocidade, era uma multa injusta. Nesse momento Eduardo chamou a atenção para os carros que passavam em velocidade claramente superior a 100 km/h e perguntou por que eles não paravam os outros carros. Estava na cara que nos pararam só porque viram que as placas eram do Brasil. Queriam dar o golpe em nós dois. Aliás, nem demorou muito para ele nos dizer que a multa era de aproximadamente 1 200 pesos e a única solução seria apreender as motos, nós seguiríamos de ônibus para o Brasil e voltaríamos na segunda-feira para acertar as contas no Tribunal de Faltas, retirando as motos. Ou então dormiríamos em algum hotel ou pousada por lá mesmo. Porém, se concordássemos em pagar uma “comissão” de 50% eles nos liberariam. Fingi que não entendi e questionei como pagaríamos a tal comissão se o tribunal estava fechado. Ele não gostou muito da minha resposta, então nos ordenou a seguir a viatura até o posto policial que havia na entrada da cidade de Posadas e foi saindo com os nossos documentos. Era a garantia de que íamos segui-los. Eu disse que eles não podiam reter os nossos documentos. Se fosse assim, seríamos obrigados a entrar em contato com a embaixada brasileira e ver como resolver esse problema. Na mesma hora ele voltou e disse que não ia reter os nossos documentos. Mas, antes de nos devolver, passou para o colega dele que anotou os nossos nomes e falou alguma coisa no rádio enquanto lia os nossos dados. Resolveram nos liberar, mas fiquei pensando o que será que o outro policial teria falado pelo rádio.

A estratégia de ameaçar chamar a embaixada funciona mesmo, mas fica aí a dica: se você for viajar para a Argentina, leve o número de algum telefone da embaixada só para o caso de algum policial corrupto te prender de verdade. Nós não tínhamos o número e se nos prendessem estaríamos em apuros.

Provavelmente o outro policial se comunicou com alguma outra viatura mais à frente e deve ter mandado ficarem de olho em nós. Por isso passamos a andar mais atentos. Aqueles caras tinham tirado toda a diversão da viagem. Em vez de olharmos as lindas paisagens das estradas argentinas, tínhamos que ficar de olho nas barreiras policiais -- que não eram poucas! Toda vez que víamos uma, ficávamos tensos. Às vezes nos deixavam passar, mas em outras nos paravam e pediam documentos nos deixando seguir após verificação.

A fronteira da Argentina com o Brasil estava a pouco mais de 300 km de Posadas e não víamos a hora de cruzá-la. Paramos em um posto para beber água e, coincidência ou não, uma viatura também parou lá. Esperamos até que fossem embora para seguirmos viagem.

Estávamos em contagem regressiva da quilometragem que faltava. Não suportávamos mais ter que ficar dando satisfações à polícia. Precisávamos atravessar a fronteira o quanto antes. Quando faltava apenas 20 km, passamos pela última barreira. Parecia que iam nos deixar passar numa boa, pois não faziam menção de que iriam nos parar. Quando cheguei a uns 5 metros deles, um dos policiais pulou na minha frente apontando para o acostamento com as duas mãos. Achei aquilo totalmente inusitado e Eduardo não se conteve e começou a rir. Foi a nossa salvação. Quando eu estava me preparando para sair da moto, vi que o policial também estava rindo com Eduardo e nos mandou seguir.

Chegamos ao entroncamento final. Para a esquerda estava o Brasil. Para a direita, o Parque Nacional Iguazú. Resolvemos dar uma conferida no parque, já que estávamos do lado argentino da fronteira, mas, ao chegarmos, descobrimos que o parque já estava fechando. Seu horário de funcionamento é até as 17h e chegamos em cima da hora. Pelo menos tiramos algumas fotos da entrada.



Saímos do parque e fomos em direção à Ponte Tancredo Neves, que liga a Argentina ao Brasil. Passamos pela aduana argentina para dar baixa nos documentos de entrada e fomos em frente felizes da vida. Finalmente estávamos de volta. Alô, Brasil, pátria amada, mãe gentil! Tchau, Argentina! Não sei se é um adeus ou um até logo, mas não chore por mim!



Chegando no hostel Paudimar Campestre, em Foz do Iguaçu, deixamos as bagagens no quarto e fomos comemorar tomando uma cerveja gelada e comendo um bom prato de feijão com arroz, frango e salada na beira da piscina.



Aliás, esse foi o hostel de melhor estrutura que passamos. Piscina, churrasqueira, salão de jogos, camping, restaurante e até um campo de futebol com grama natural. Óbvio que jogamos uma partida. Juntamos os brasileiros que estavam por lá e fomos jogar contra os gringos, que tinha o time formado por franceses e ingleses. Demos uma goleada de 4 a 1. Bom para descontrair depois de um dia tão tenso.



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13 fevereiro 2009

A Grande Fuga (Parte 1)

Eu e Eduardo fomos obrigados a replanejar a viagem. Não estava previsto pararmos em Colón, e sim em Mercedes. Mas, àquela altura, se fôssemos para Mercedes íamos acabar saindo muito da rota para Foz do Iguaçu, por isso procuramos um outro roteiro. Durante o café da manhã consultamos o mapa e concluímos que o melhor destino seria Posadas, na província de Misiones.

Arrumamos as malas mais uma vez e fomos para a estrada. Não sem antes parar para umas fotos. Colón é um “balneário” que fica às margens do Rio Uruguai. É um tipo de praia para os argentinos.



Fomos até a saída da cidade e voltamos à Ruta 14. A estrada estava em obras em vários trechos e a poeira espalhada no ar incomodava bastante. E ainda por cima fomos parados pela Policia Caminera várias vezes no caminho. Eles pediam a nossa documentação, mas quando viam que estava tudo certo nos deixavam passar. Cheguei a pensar que o seguro Carta Verde, obrigatório para quem quer viajar pelo Mercosul, seria inútil, mas ele foi solicitado pelas autoridades rodoviárias todas as vezes que nos pararam. Pelo menos não inventaram que estávamos acima do limite de velocidade. Nós nos sentimos como se estivéssemos em um daqueles filmes onde os protagonistas precisam cruzar a fronteira com algum país vizinho para poderem escapar da polícia.

Paramos em um restaurante na beira da estrada para almoçar. Eduardo ainda não sabia nada sobre os cardápios em espanhol. Eu pedi um bife de chorizo, que nada mais é que uma posta grossa de contrafilé, acompanhado de purê de batata. Eduardo disse que queria o mesmo, mas não fazia a menor idéia do que eu tinha pedido. Quando veio o prato ele torceu o nariz, mas não tinha jeito, tinha que encarar o churrasco argentino mais uma vez ou ia ficar sem comer até chegarmos em Posadas.

A dona do estabelecimento se encantou quando dissemos que somos brasileiros viajando pelo país dela em duas motocicletas. Ela disse que conhecia o Brasil e que tem parentes vivendo em São Paulo. Nos falou sobre alguns dos lugares que ela visitou na cidade da garoa e disse que tem vontade de voltar.

Na hora de pagar a conta nos lembramos que o nosso dinheiro estava debaixo das palmilhas dos sapatos. Expliquei para a dona do restaurante e tirei a quantia necessária para pagar a conta. Ela riu e nos perguntou o motivo de tanta segurança. Contei a ela o que tinha acontecido conosco e a polícia de Entre Ríos. Ela ficou indignada e disse que a polícia de Entre Ríos é a vergonha nacional, a mais corrupta de toda a Argentina. Nos disse que devemos endurecer mediante tentativa de extorsão por parte deles e que, se ameaçassem nos prender, que nos prendam, mas que dissésemos a eles que íamos ligar para a embaixada brasileira solicitando um advogado que nos pudesse dar auxílio. Agradecemos as dicas e deixamos o restaurante.

De volta à estrada, uma coisa que vem me chamando a atenção desde muitos quilômetros atrás. Por toda a Ruta 14 existem placas com protestos sobre as Ilhas Malvinas. É uma perda que realmente mexe com os corações dos argentinos.



A polícia continuou nos parando no caminho, mas só nos pediam documentação. Nossa e dos veículos. Chegamos à conclusão de que eles iam nos parar sempre, não importa se tivéssemos cometido ou não alguma infração de trânsito.

Em determinado ponto da estrada acabamos entrando no lugar errado e caímos na Ruta 119. A estrada mudou bruscamente, caindo a qualidade do asfalto, quase sem sinalização e totalmente sem acostamento. Eduardo achou estranho e, depois de uns 10 km, resolvemos parar para consultar o mapa. Concluímos que devíamos voltar, pois a Ruta 14 mudava de direção em 90° e nós tínhamos seguido em linha reta. Quando chegamos ao ponto de convergência, pedi informação para um policial que estava por ali. Ele me indicou o caminho para Posadas, mas não perdeu a oportunidade e mandou uma em portunhol: “non tem um trocado de Brasil para el policia argentino?” Só faltava essa! Policial argentino pedindo esmola! Ninguém merece.



Pegamos mais um longo trecho sem encontrar postos de combustível. Eduardo passou a andar mais devagar para tentar economizar combustível. A Lander dele já estava na reserva e eu estava pensando no que fazer em caso de pane seca. Desta vez não tinha casas por perto, como na estrada para o Chuí, portanto não tinha como tentar comprar gasolina de alguém que tivesse carro. O jeito era pedir auxílio de algum motorista ou eu me aventurar sozinho até o próximo posto. O problema era que já estava começando a anoitecer e não podíamos nos separar.

Estávamos mesmo com sorte. Faltando apenas alguns litros para o combustível dele se exaurir por completo, encontramos um posto salvador. Aliás, o posto tinha uma fila de automóveis bem grandinha. Eram motoristas que iam dirigir no sentido oposto ao nosso e sabiam que aquele posto era a última chance de abastecerem. Bom sinal. Posto com alta rotatividade significa que não tem gasolina velha.

Chegamos em Posadas já durante a noite e fomos procurar o hostel. Muitas ruas lá não são asfaltadas. Rodamos por um tempo pedindo informações até que um motociclista local se dispôs a nos levar para o La Aventura Hostel. Nós só tivemos que segui-lo. E como não podia deixar de ser, ele nos fez várias perguntas sobre as motos.

Enfim, estávamos alojados. Precisávamos dormir bem para, no dia seguinte, entrarmos no Brasil e ficarmos tranquilos. A polícia nos estressava muito e acabava com o prazer da viagem.

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12 fevereiro 2009

Que Dia!

Tem dias que a gente pensa que não devia nem ter saído da cama. Hoje foi um desses.

Molinari saiu de Buenos Aires ontem, pois o nosso plano era ir direto para Mercedes, na província de Corrientes, e ele achou que a distância seria muito grande para ele. Pensou um pouco e achou que seria melhor sair um dia antes, dormir em Colón, na província de Entre Ríos, para só no dia seguinte seguir para Mercedes, onde nos encontraria.

Eduardo e eu arrumamos as nossas coisas que estavam no hostel e fomos carregando as nossas malas por dois quarteirões até um estacionamento onde tínhamos deixado as motos.



Chegando lá observei que o pneu traseiro da minha moto estava meio baixo. Normal, essas coisas podem acontecer. Ainda mais depois de três dias sem calibrar após ter rodado tanto. Tudo que tínhamos que fazer era parar no posto mais próximo e enchê-lo de ar.

Bagagens nas motos, saímos à procura de um posto para o ar do pneu e para abastecer os tanques. O manobrista do estacionamento onde estávamos nos indicou um posto Shell que ficava a poucos metros do famoso obelisco da Av. 9 de Julio.



No caminho para o tal posto é que pude sentir como o pneu estava baixo. Tive que andar bem devagar e mal dava para manter o equilíbrio nas curvas. Os outros motoristas que passavam por mim apontavam para o pneu me avisando como se eu não tivesse me dado conta do problema.

No final da avenida encontramos o posto, mas estava em obras. O que fazer, então? Ir para outro posto poderia ser muito desgastante para o pneu e a roda. Por sorte o frentista nos avisou que somente o ar estava funcionando. Pelo menos daria pra encher o pneu e procurar outro lugar para abastecer.

Fomos seguindo o caminho que levava para a Ruta 9, rodovia que nos levaria para fora de Buenos Aires rumo a Zárate, onde mudaríamos de rodovia para chegar até Mercedes. Paramos no primeiro posto para pôr gasolina e aproveitei para recalibrar o pneu e certificar-me de que não estava perdendo ar. Pura ilusão, o pneu continuava baixando. Verifiquei a válvula e estava tudo bem, mas foi aí que Eduardo viu que tinha um parafuso empalado no pneu. O jeito era procurar uma borracharia pra tentar reparar o problema. Como sou prevenido, tinha levado comigo na bagagem uma câmara de ar para esse tipo de emergência.

Saímos da rodovia e paramos na primeira borracharia que encontramos. Falamos com o cara que trabalhava lá e ele disse que sim, colocaria a câmara de ar no pneu. A única condição era a de que eu tirasse o pneu desmontando a roda porque eles não faziam esse tipo de serviço em motos. Que droga! O jeito era procurar outro borracheiro que fizesse o serviço. Mas ele nos disse que por lá nenhum borracheiro iria retirar a roda, esse serviço tinha que ser feito por mim porque eles não dariam garantia sobre o alinhamento e a posição da corrente. O jeito era procurar algum lugar especializado em motos.

Quando íamos sair da borracharia, um cara numa Honda Falcon estacionou bem em frente. Perguntei para ele onde poderíamos encontrar uma oficina para motos e ele disse que só encontraríamos se voltássemos para Buenos Aires. Que legal, tínhamos que fazer o caminho de volta. Pelo menos ele foi legal e nos indicou uma autorizada da Honda chamada Avant Motos.

Voltamos para a capital argentina e, para variar, acabamos nos perdendo de novo. Tive que parar em outro posto para colocar mais ar no pneu, que estava se esvaziando cada vez mais rápido. Como sempre, um curioso se aproximou para fazer perguntas sobre as motos, que não são vendidas na Argentina. Aproveitamos para perguntar onde ficava a tal Avant Motos.

A primeira coisa que fazíamos nas cidades nas quais parávamos era pegar um mapa para saber nos localizar. Tiramos um mapa de Buenos Aires do bolso e pedimos uma orientação ao sujeito que tinha se aproximado de nós. Estava fácil, era só andar mais algumas quadras pela Av. Libertador até a Av. Pueyrredón e seguir por ela até a Córdoba. A loja ficava na esquina. Desta vez foi fácil e a encontramos sem maiores problemas. Chegando lá, expliquei o problema para um dos funcionários, que me mandou ir para a rua de trás, onde ficava a oficina.

Finalmente estávamos no lugar certo para resolver o problema do pneu. Os caras foram muito legais conosco e disseram que até poderiam colocar a câmara de ar no pneu, mas seria uma solução demorada e que o melhor e mais rápido seria vedar o furo com um “caucho sintético”, que poderia ser feito sem ter que tirar a roda, além de ser totalmente seguro e manteria a vida útil do pneu. Só que... eles não faziam!

Nos indicaram uma outra borracharia onde o serviço poderia ser feito. Pegamos o mapa novamente, mas o lugar nem aparecia nele. De qualquer jeito, o cara nos deu a indicação e fomos para lá.

Chegando lá, fomos bem atendidos e em dois minutos o pneu estava recuperado e pronto para pegar a estrada outra vez. O único problema é que já era 14h00 e não daria mais tempo de irmos até Mercedes. Fomos obrigados a fazer uma mudança de planos. Seguiríamos somente até Colón e passaríamos a noite lá.

Agora sim, pegamos a Ruta 9 e fomos em direção a Zárate, onde paramos para fazer um lanchinho. Logo depois seguimos pela Ruta 12 para chegar a Colón, mas assim que passamos pela ponte que liga Zárate à província de Entre Ríos, fomos parados pela polícia. Eles pediram os nossos documentos, como de praxe e, por sermos brasileiros, resolveram aplicar o golpe. Disseram que estávamos acima do limite de velocidade. Nós não estávamos, mas não teve argumento que os convencesse do contrário. Nos levaram para dentro do posto policial, onde dava pra ver o lado de fora sendo monitorado por câmeras de vigilância, mas nada na ponte. Aí eles vieram com uma conversa fiada de que quando um argentino é multado, a notificação vai para a casa dele, mas não existe convênio da Argentina com o Brasil e, por isso, não tinha como mandar a notificação para os nossos endereços e teríamos que pagar em território argentino. Até que fazia sentido, mas o problema é que nós estávamos seguindo todas as indicações de velocidade. A multa, segundo ele, era de 2 mil pesos, mas se déssemos uma contribuição de apenas 10% para eles, poderíamos seguir viagem.

Pronto, agora ferrou. Como é que vamos dar 200 pesos pra esses caras? Ainda mais sabendo que éramos inocentes! Falei pra ele que nós não tínhamos um centavo sequer. Estávamos usando cartão de crédito para abastecer até chegar ao Brasil -- detalhe: os postos de combustível da Argentina não aceitam cartão de crédito, o que é um absurdo.

O policial até aceitou que não tínhamos dinheiro conosco, mas só ia liberar as motos mediante pagamento. Então exigiu que voltássemos para Zárate para sacar dinheiro para ele em um caixa eletrônico. Era muita cara de pau do sujeito. Eu disse que não teria como sacar porque eu já havia tentado em Buenos Aires e não tinha conseguido. Ele perguntou por que e eu tive que pensar rápido. Disse que o plano que eu tinha era o mais simples e não me permitia sacar dinheiro no exterior. Aí ele pegou o envelope com os meus documentos e tirou de lá a minha identidade e carteira de motorista. Era a garantia de que eu iria até Zárate e voltaria com dinheiro para ele. Eu perguntei o que aconteceria se me pedissem aqueles documentos no banco e ele achou que eu tinha razão. Olhou de novo no envelope e resolveu ficar com o manual da moto. Me perguntou se ali estava a garantia do veículo e eu confirmei.

De posse de todos os meus documentos, fora o manual, voltamos pela ponte em direção a Zárate. Do outro lado, paramos para pensar no que faríamos. A minha idéia era voltar para Buenos Aires e fugir para o Uruguai. No Brasil eu daria um jeito e compraria outro manual se fosse necessário. Eu preferia pagar 90 dólares para atravessar de barca para o outro país do que deixar um centavo na mão daquele guardinha. Mas Eduardo não gostou muito da idéia. O que fazer se acontecesse a mesma coisa no Uruguai? Além disso, ele estava preocupado com Molinari e Adenize, que não tinham como nos dar notícia, pois os nossos celulares não funcionavam fora do Brasil. O combinado era de que nos reencontraríamos em Foz do Iguaçu. Fora que no país dos outros somos obrigados a seguir as regras das autoridades locais, mesmo que sejam regras ilegais. Querendo ou não, o policial é uma autoridade.

O que fazer então? Tínhamos que dar um jeito de passar pela barreira. Mas como é que voltaríamos lá com dinheiro se saímos dizendo que não tínhamos nada? Pensamos, pensamos e chegamos a uma solução. Daquele lado da ponte tinha um restaurante. Tudo que tínhamos que fazer era dizer que compramos qualquer coisa lá, pagamos com cartão e conversamos com o dono para cobrar a mais e nos dar o troco em dinheiro. Boa! Só pra confirmar, entramos no restaurante e perguntamos se aceitavam cartão de crédito, mas o cara respondeu que não, “solo lo efectivo”, ele disse.

Tá legal, se contarmos essa história certamente não vai colar, pois o policial deve conhecer o restaurante. Melhor inventarmos outra história. E se dissermos que encontramos um grupo de brasileiros no restaurante e vendemos alguma coisa para eles? Essa pode dar certo. Só mais uma coisa, quando entramos no Uruguai fomos avisados sobre a corrupção da polícia argentina e nos disseram que eles até revistam as bagagens em busca de dinheiro. E se nos revistassem? Iam querer levar toda a grana que tínhamos. Solução prática: escondemos tudo debaixo das palmilhas dos nossos sapatos deixando na carteira somente 60 pesos, cerca de 40 reais, que nos vimos obrigados a entregar a eles.

De volta ao posto policial, disse ao oficial que tinha nos barrado que não voltei a Zárate porque sabia que aconteceria o mesmo que em Buenos Aires -- não me deixariam sacar. Aí paramos no restaurante do outro lado da ponte para ver se conseguíamos trocar por lá e, como não aceitavam cartão, ficamos sem opções. Por sorte, encontramos um grupo de brasileiros por lá e contamos o que nos tinha acontecido. Eles entenderam o nosso problema e concordaram em comprar uma camisa oficial do Boca Juniors que tínhamos comprado em Buenos Aires, mas ele só nos deu 60 pesos. Ele olhou pra mim com a cara mais cínica do mundo e disse: “¿Una camiseta de Boca? ¿Por qué no me dijo? Si supiera que vos la tenía, yo me habría quedado con ella. Voy a acceptar los 60 pesos, pero es de corazón.” Que FDP!

Depois de mais duas horas parados por causa da Policia Caminera, pudemos finalmente seguir viagem, mas de olho em todos os policiais que víamos pela estrada. Quando víamos um, reduzíamos a velocidade para pouco mais da metade da máxima permitida, assim não teria como dizer que estávamos correndo. Só faltava nos parar alegando que estávamos andando abaixo da mínima.

Alguns quilômetros depois, paramos para abastecer e encontramos um brasileiro que estava indo no sentido oposto. Ele nos mandou tomar cuidado porque tinham parado ele perto dali sob a alegação de que ele tinha passado sobre a faixa contínua. Os policiais argentinos inventam qualquer coisa para tentar tirar dinheiro dos viajantes. Felizmente desta vez não nos pararam.

Finalmente, depois de tanto estresse, chegamos a Colón, onde paramos em um restaurante às margens do Rio Uruguai, a praia deles. Depois de um dia desses tudo o que precisávamos era de um lugar tranquilo para passar a noite. Já era quase 22h00 e o centro de informações turísticas nos indicou algumas pousadas para ficar. Fizemos umas pesquisas e resolvemos ficar em uma mais afastada do centro. O dono era um senhor que aparentava ter idade próxima dos 70 anos. Ele se interessou pelas motos e começou a nos fazer perguntas. Pedimos uma cerveja para relaxar antes de dormir, afinal, nós merecíamos depois de um dia como esse. E não é que o cara voltou com três copos? Fingimos que não vimos e ignoramos o terceiro.

Espero que amanhã o dia seja mais tranquilo do que hoje.

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11 fevereiro 2009

Tour por Buenos Aires

Depois daquela chuva toda do dia anterior, nós bem que merecíamos um dia de sol. E foi assim mesmo. Além disso, tínhamos uma guia turística de luxo conosco. Lucy veio nos buscar no hostel para um passeio por alguns dos principais pontos turísticos de Buenos Aires. O primeiro deles foi Puerto Madero, que ficava a poucas quadras da rua Florida. Lá estava atracado o navio museu Presidente Sarmiento, o qual visitaríamos. No caminho víamos a cara de Maradona por todo lado. Ele é o atual técnico da seleção argentina que jogaria logo mais.



De lá, fomos andando até a Plaza de Mayo, onde fica a Catedral de Buenos Aires e a Casa Rosada, sede do governo argentino, dentre outras edificações históricos. Havia uma faixa com uma mensagem de protesto que mostrava o descontentamento da população pela perda das ilhas Malvinas para a Inglaterra. Até hoje aquilo mexe com o sentimento nacional.



Almoçamos numa rua ali perto. Eduardo não gostou muito da refeição. A comida argentina é muito rica em carnes e ele estava sentindo falta de um bom prato de feijão com arroz.

A cada lugar que visitávamos, Lucy nos contava algo. Sabe muito de história argentina essa garota. Pegamos um ônibus até o bairro de La Recoleta, um dos mais ricos da cidade. Ela nos contou que antigamente as pessoas viviam na zona sul de Buenos Aires, mas uma vez houve uma epidemia de febre amarela que assolou aquela região. As famílias que tinham dinheiro se mudaram para o norte, onde está La Recoleta, e construíram mansões onde passaram a morar. Hoje muitas dessas mansões deram lugar a entidades públicas ou privadas, como hotéis e embaixadas. As embaixadas do Brasil e da França funcionam no que outrora foram casas de algumas dessas famílias.

Lucy tinha que nos deixar para resolver alguns problemas pessoais, então nos despedimos com um forte abraço. Obrigado por tudo, Lucy. Quando for ao Brasil, conte conosco.



O Cemitério de La Recoleta é mais um ponto turístico da cidade. Lá foram sepultados personagens famosos da história argentina, como Bartolomé Mitre e Eva Perón. Demos uma volta lá dentro, mas Eduardo não se sentiu muito à vontade caminhando entre os mortos. Como estávamos cansados, voltamos para o hostel.

Existe um problema sério de falta de moedas na Argentina. São poucas as que estão em circulação. Ironicamente, os ônibus só aceitam moedas como forma de pagamento. Nós tivemos problema na hora de voltar porque não tínhamos trocado e ninguém tinha para nos dar troco em moedas. Resultado: tivemos que voltar a pé. Mais tarde, já no hostel, pude assistir ao jogo de Argentina e França enquanto atualizava este blog. Para alegria geral dos que estavam com os olhos grudados na tela, a Argentina venceu por 2 a 0.



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